terça-feira, 30 de novembro de 2010

O Bêbado e o Equilibrista, a embriaguez da escrita

O Bêbado e o Equilibrista, a embriaguez da escrita



“Deus lhe pague/
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir/
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir/
Deus lhe pague”
Construção – Chico Buarque

A figura do bêbado é muito recorrente na literatura mundial, como é de conhecimento gera. Um curioso ocaso ou existe uma razão especial para tão distinto personagem? A principal personagem da vanguarda, como veremos depois, é justamente esse bêbado. E, ao analisarmos profundamente o movimento, veremos que sim, a razão desta figura ser retratada quase que exaustivamente não é por acaso. Nem é repetitiva, pois cada autor possui seu próprio bêbado. Deixe-me explicar: o bêbado em si não é uma personagem, mas principalmente um estado, isto é, o próprio autor sobre a influência do etílico muda talvez características da sua forma de escrever, dos seus objetivos e da sua linha de raciocínio. Mas a verve, a fonte, o espírito do autor continua próprio e singular quanto era antes. Não estou dizendo, claro, que as personagens não podem se assemelhar umas as outras, mas estou dizendo que é possível tratar delas em extensa quantidade sem se repetir em demasia.

Ora, o estado da embriaguez representa muito mais do que o simples consumo de etílico. De fato, o consumo de álcool parece ser só mais um caminho para atingir essa embriaguez. A tontura, as incertezas, as repentinas e intensas emoções provocadas por este estado são característicos não só advém da bebida. Mas também das relações amorosas, das sensações de euforia provocadas por Deus sabe o que, também não são assim? Também não provocam essas reações?

Uma das propostas da vanguarda de André Luiz, Eric Fagundes, Érica Oliveira, Magno Santos e Pedro Aguiar, parece ser justamente investigar as causas dessa euforia. Ou pelo menos as tangências entre a bebida e a literatura. Ou melhor dizendo, o ato de escrever e o ato de consumir etílicos. Deixe-me explicar: retratando a bebida em seus textos, colocando-os em uma garrafa de cachaça, parecem querer dizer que a própria escrita, assim como a bebida, pode levar o leitor ou o mesmo escritor, o bêbado, a um estado de euforia, a um estado de embriaguez. A igualdade de fins é justificada tanto no conteúdo em si dos textos (que tratam sobre bebida e as causas e conseqüências de se beber), quanto na forma dos mesmos. A forma leve e divertida de muitos, além de haver alguns com reflexões melancólicas – essa dicotomia será tratada em breve – parece tratar bem das emoções provocadas pela ingestão de álcool, do começo dessa embriaguez. A visão distante, ou difusa dessas emoções também corresponde a visão do bêbado.

A dicotomia supracitada é outro interessante aspecto da vanguarda. A tênue linha entre a condenação da bebida, o ensejo de tomá-la, a necessidade de fazê-lo, assim como a angústia de não beber e a angústia de beber, se mantém nos textos. A vanguarda é justamente o bêbado trôpego, que não toma posição certa sobre o assunto, mas rodeia, e, sempre a andar, chega a lugar algum. Esse bêbado equilibrista – de onde a primeira parte do título vem – é o responsável pela ampla visão sobre o assunto que a vanguarda proporciona. Ao mesmo tempo, o próprio leitor está se embriagando, ao ler (como a garrafa de cachaça sugere). E isso é extremamente necessário, pois o leitor tem de se embriagar para não tomar partido e ver a vanguarda com a visão ampla e desfocada que só um bêbado equilibrista possui.

Como se não bastasse uma nova visão sobre o que é literatura, e as inúmeras pontes e paralelos traçados entre o ato de beber e o de escrever/ler, a vanguarda ainda trás uma crítica contundente a sociedade atual. O ato de embriagar-se, no senso comum, normalmente é um ato de escapismo. Isto é, o sujeito foge dos problemas da realidade na bebida, ou em outras drogas. Uma realidade cada vez mais preocupante, que a sociedade parece impor aos setores mais desfavorecidos, e até aos setores mais favorecidos. Todos nós sentimos o peso das responsabilidades e o estresse do cotidiano. Além disso, a dureza e a crueldade da realidade atual muitas vezes são demais para nós. A bebida então seria uma amarga saída, como bem aponta a vanguarda. Os versos retirados da música “Construção” de Chico Buarque de Holanda retrata bem essa verdade: o amargo gosto da bebida que temos que engolir, atualmente, para suportar essa nossa sociedade.

Aqui está explícito o sentido negativo da embriaguez. Uma rota de fuga dos problemas, ficar alto para não encarar a realidade. Uma negação da mesma, não mais um estado de ascendência da consciência e da compreensão, e sim um estado de negação do real pura e simplesmente.

Podemos admirar então o movimento proposto pelos alunos, que traz a todos uma nova visão do tão famoso bêbado. Uma reflexão profunda sobre o ato da escrita e a busca pela embriaguez. Uma critica contundente a sociedade. Tudo isso numa forma vaga, imprecisa, incerta. A forma de um bêbado equilibrista.


Por Sey Ma's Quetu, sábio oriental.

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